Hack e Ética: pelo direito de imaginar um futuro ético

Projeto aproxima educação, integridade e empreendedorismo ao desafiar estudantes a desenvolver soluções para questões reais do ambiente corporativo. Em três anos, a iniciativa já mobilizou mais de 4.500 alunos e aproximadamente 1.050 equipes.

O que acontece quando jovens que nunca trabalharam em uma empresa são convidados a pensar soluções para problemas do ambiente corporativo? A resposta surpreendeu até quem já conhecia bem aquele ambiente.

Nos últimos três anos, mais de 4.500 estudantes, organizados em aproximadamente 1.050 equipes, participaram do Hack e Ética, iniciativa que aproxima educação, ética e desafios vividos pelas organizações. A proposta não se limita a apresentar conceitos de integridade aos alunos. Eles recebem conteúdo, percorrem trilhas de desenvolvimento e, posteriormente, precisam transformar o aprendizado em uma resposta concreta para um desafio.

O projeto nasceu de uma conversa iniciada em 2023, durante uma semana de integridade da Firjan. Foi quando Antonio Carlos Hencsey, o “Tatau”, da Eticalizando, apresentou a ideia de ampliar a capilaridade das discussões sobre ética e levá-las para as escolas.

A lógica era relativamente simples: se a intenção é falar de mudança de comportamento no longo prazo, talvez seja necessário começar muito antes da chegada das pessoas às empresas.

“Acredito que a única chance de verdade de mudança é a educação”, resume Tatau.

A relação de Tatau com a educação precede o próprio projeto. Parte importante de seu trabalho voluntário esteve ligada à área e à possibilidade de oferecer oportunidades a pessoas que, em outros contextos, dificilmente teriam acesso às mesmas ferramentas de desenvolvimento.

Essa visão ajuda a explicar uma característica central do Hack e Ética: os estudantes não aparecem apenas como público de uma ação de conscientização, mas como protagonistas do processo. A cada edição, o projeto escolhe uma temática conectada a questões que também estão sendo discutidas dentro das empresas. A primeira jornada, em 2024, foi dedicada ao respeito. Em 2025, o tema foi inteligência artificial. Em 2026, a discussão avançou para bem-estar e integridade nas organizações.

A partir desses eixos, os participantes recebem materiais e conteúdos preparatórios e, posteriormente, um desafio. As propostas passam por etapas de avaliação e bancas, com participação de profissionais e parceiros do projeto. O processo procura desenvolver competências que dificilmente caberiam em uma aula tradicional: colaboração, criatividade, capacidade de argumentação, resolução de problemas e tomada de decisão.

É o que Tatau relaciona ao conceito de “criatividade ética”: trabalhar integridade na base, mas sem reduzi-la à repetição de regras sobre certo e errado.

O olhar de quem ainda não aprendeu a pensar como uma empresa

Para Pedro Sanches, sócio do escritório Prado Vidigal Advogados, profissional dedicado ao direito digital, proteção de dados e inteligência artificial, a experiência trouxe uma surpresa adicional.

Ele passou a participar do projeto a partir da 2ª edição após conversas e, antes de entrar, ouviu um aviso: “Você vai se surpreender com o nível de entrega.” A previsão se confirmou.

O que chamou a atenção de Pedro não foi apenas a qualidade formal dos trabalhos, mas o processo criativo usado pelos estudantes para enfrentar os problemas propostos.

Em alguns casos, surgiram soluções que ainda não são comuns no próprio mercado. Há um paradoxo interessante nessa experiência.

Justamente por não terem vivido anos dentro de estruturas corporativas, os estudantes também não carregam alguns dos pressupostos que condicionam a maneira como profissionais experientes enxergam determinados problemas. Eles desconhecem parte das limitações do ambiente empresarial. E isso, em determinadas situações, pode ser uma vantagem criativa.

“Também fiquei surpreso com alunos trazendo soluções para o ambiente corporativo sem terem vivido esse ambiente”, relata Sanches. A pergunta que surge daí talvez seja uma das mais interessantes produzidas pelo projeto: o quanto a experiência ajuda a resolver problemas e o quanto ela também limita as soluções que conseguimos imaginar?

Educação como parte da própria estrutura

Do ponto de vista da Firjan, SESI/RJ e SENAI/RJ a aproximação com jovens encontra um terreno institucional já consolidado.

“Falar de juventude está no nosso DNA”, afirma Luiz Claudio Cabral Coelho. A organização possui uma estrutura voltada à educação, o que facilita a participação no projeto que combina formação, desenvolvimento e conexão com problemas concretos.

Essa lógica também se aproxima da metodologia associada ao SESI e SENAI: partir de desafios reais para desenvolver competências que possam ser empregadas posteriormente na vida profissional.

A faixa entre 10 e 17 anos, segundo os participantes, representa ainda um período especialmente relevante para trabalhar habilidades socioemocionais.

Mas colocar centenas de estudantes diante de desafios complexos exige mais do que formular uma boa pergunta. O Hack e Ética foi construindo, ao longo das edições, uma estrutura de acompanhamento formada por diferentes organizações e profissionais. Há um comitê interno e de parceiros, participação de bancas intermediárias e trilhas desenvolvidas ao longo da jornada.

Entre os parceiros citados estão Sebrae e L’Oréal. O Sebrae participa também oferecendo mentorias aos estudantes. Para Ana Carla Coutinho Torres, esse caráter coletivo é parte importante do funcionamento da iniciativa. O projeto, segundo ela, é resultado de “muitas mãos”, e a multidisciplinaridade torna-se necessária justamente porque as soluções propostas atravessam educação, negócios, comportamento e integridade.

Da boa ideia para algo que pode existir

A entrada do Sebrae acrescentou outra camada ao projeto.

Uma solução ética pode ser interessante do ponto de vista conceitual e ainda assim nunca sair de uma apresentação. Por isso, uma das preocupações passou a ser ajudar os estudantes a entender como transformar a proposta em algo aplicável — e, eventualmente, até comercializável.

Para Tatau, esse é um dos pontos relevantes da parceria: oferecer aos participantes condições para que consigam empreender sobre aquilo que desenvolveram, aproximando criatividade de execução. A mudança é importante porque transforma o exercício. O estudante deixa de responder apenas: “Qual seria uma boa solução para esse problema?” e passa a enfrentar perguntas mais próximas da realidade: isso funciona? Alguém utilizaria? Como implementar? Como apresentar? Como transformar a ideia em algo sustentável? São questões empresariais, mas também questões de formação.

Um processo de maturidade

Depois de três anos, os próprios organizadores descrevem o Hack e Ética como um processo ainda em construção. A cada edição, novas trilhas, parceiros e etapas foram incorporados. A jornada evoluiu de uma iniciativa de sensibilização para uma estrutura que procura conectar educação, integridade, criatividade, competências socioemocionais e empreendedorismo.

Talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais interessante do projeto.

Programas de integridade costumam dedicar grande parte de sua energia a ensinar adultos, já inseridos em estruturas organizacionais complexas, sobre comportamentos esperados pela empresa.

O Hack e Ética inverte parcialmente essa lógica. Em vez de perguntar apenas como ensinar ética dentro das empresas, ele parte de outra questão: o que acontece quando começamos essa conversa antes mesmo de os jovens entrarem nelas?

Talvez seja justamente aí que esteja o aspecto mais interessante do projeto. Januária Lopes considera que o engajamento dos alunos nos projetos decorre em virtude da sensibilização por situações que começam nas escolas, como discriminação, bullying e assédio. “É importante que estes temas sejam tratados desde a formação dos jovens, para que tenhamos uma sociedade mais justa e ambientes profissionais mais saudáveis.”

E há ainda uma segunda consequência, menos óbvia. Enquanto os estudantes aprendem a olhar para problemas corporativos, as empresas também recebem a oportunidade de olhar para esses mesmos problemas por meio de pessoas que ainda não aprenderam qual seria a resposta “normal”. Às vezes, justamente por isso, encontram respostas diferentes.

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