Na verdade, para quem atua em Compliance, Gestão de Riscos e Integridade, é exatamente nesse momento que um novo ciclo se inicia.
Receber a proposta não significa que a jornada acabou; significa apenas que a braçada mudou. O profissional deixa de nadar para ser encontrado pelo mercado e passa a nadar para se consolidar dentro da organização.
O mercado de trabalho atual tem exigido não apenas qualificação técnica, mas elevada capacidade de adaptação, inteligência emocional e leitura de contexto.
Em média, o processo de recolocação pode levar meses até a contratação, mas os primeiros 30 a 90 dias após a entrada são, muitas vezes, ainda mais decisivos para a permanência e construção de reputação profissional.
Em Compliance, esse período inicial é particularmente sensível.
Entrar em uma nova organização significa compreender sua cultura, estrutura de governança, apetite ao risco, nível de maturidade dos controles internos e o real compromisso da liderança com ética e integridade.
É comum que, ao ingressar em uma empresa, especialmente em ambientes em desenvolvimento ou reestruturação de processos, o profissional sinta a necessidade imediata de demonstrar resultado.
No entanto, um dos maiores erros nesse início é focar exclusivamente na solução sem compreender a origem do problema.
Em Compliance, entender o “porquê” é tão importante quanto remediar o “como”.
Antes de propor ajustes em processos, controles, políticas internas ou fluxos de aprovação, é essencial compreender por que aquele risco surgiu, quais vulnerabilidades de governança o permitiram e qual o impacto potencial para a organização.
Essa análise é o que diferencia uma atuação operacional de uma atuação verdadeiramente estratégica. Os primeiros 90 dias devem ser utilizados como fase de diagnóstico.
É o momento de observar:
- a postura da alta liderança em relação à integridade ;
- o nível de autonomia da função de compliance;
- a interação entre Jurídico, Auditoria, RH e TI;
- a maturidade do canal de denúncias;
- a qualidade dos controles preventivos e detectivos;
- o nível de conscientização das áreas de negócio.
Mais do que entregar rapidamente, o profissional precisa construir legitimidade.
Mesmo em modelo híbrido ou home office, é importante lembrar: o ambiente ainda não é familiar.
A cultura organizacional precisa ser lida com cautela. Isso inclui entender o que é dito formalmente e, principalmente, o que é praticado informalmente.
Em áreas de compliance, essa leitura é crítica. Muitas vezes, políticas e códigos de conduta estão muito bem estruturados no papel, mas a cultura real da organização ainda não está plenamente aderente a esses princípios.
Por isso, os primeiros meses também exigem escuta ativa. Escutar lideranças, pares e áreas parceiras ajuda a identificar riscos culturais, desalinhamentos de processo e oportunidades de fortalecimento do programa de integridade.
Outro ponto fundamental é a comunicação. Em um ambiente novo, especialmente em funções que envolvem risco e governança, a forma como nos posicionamos pode determinar a credibilidade do trabalho.
É preciso equilíbrio entre assertividade e prudência. Nem toda percepção inicial deve ser imediatamente verbalizada, assim como nem toda urgência aparente representa um risco material.
Compliance exige senso crítico, priorização e visão sistêmica. A recolocação, portanto, não termina com a proposta. Ela começa ali.
E, para quem atua com integridade, talvez o maior desafio não seja apenas conquistar a vaga, mas construir, nos primeiros 90 dias, a confiança necessária para influenciar a cultura, fortalecer controles e contribuir de forma sustentável para a governança da organização.