Há uma ironia cruel no mercado de trabalho atual: nunca se falou tanto em propósito, governança, integridade, cultura organizacional e responsabilidade social corporativa; e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão desumano tentar processos seletivos nas áreas, em especial, que deveriam defender tais valores.
Quem busca se recolocar ou uma primeira oportunidade em Governança Corporativa, Compliance e, até em Investigações, logo percebe que o discurso corporativo é impecável no ppt, mas ainda tropeça nos corredores e salas dos processos seletivos e, sobretudo, no silêncio automático do “não avançamos com a sua candidatura” (isso quando há resposta) enviado por um sistema que certamente não leu a história de ninguém.
É inusitado, para não dizer tragicômico, que funções construídas para avaliar riscos, prevenir desvios, interpretar condutas, apurar fatos e proteger pessoas e organizações sejam filtradas, em larga escala, por mecanismos que reduzem currículos a um conjunto de palavras-chave.
O profissional iniciante ou sênior que deseja atuar com discernimento, ceticismo responsável e capacidade de análise se vê obrigado, antes de qualquer conversa real, a vencer o primeiro grande caso investigativo da carreira: descobrir o que o robô do recrutamento quer saber.
E não basta ser competente e ter um bom currículo. É preciso ser competente para os filtros da máquina, falar a língua do formulário, caber no campo de busca e sobreviver ao tribunal invisível do ranqueamento automatizado que pode conter vieses discriminatórios, inclusive.
Há algo de profundamente contraditório nos processos seletivos. Em teoria, essas áreas existem para fazer perguntas e análises de uma trajetória pessoal.
Na prática, é feito majoritariamente sempre o mesmo: idade, formação, experiências idênticas às da vaga anterior, disponibilidade emocional para sorrir diante da pergunta com quem você deixa seus filhos (no caso da mulher).
Dizem querer profissionais resilientes, mas não gostam de currículos que revelem travessias transversais de pessoas reais. Dizem buscar pensamento crítico, mas preferem histórias lineares, sem hiatos ou mudanças no percurso.
Falam de integridade como valor inegociável, porém normalizam processos seletivos superficiais e friamente padronizados. Exigem humanidade para lidar com riscos humanos, enquanto terceirizam a uma lógica matemática que não entende contexto, nuances e nem retomadas de carreira.
Para quem tenta a primeira oportunidade, o cenário beira o absurdo. Pedem experiência para oferecer a primeira experiência. Pedem maturidade profissional, mas tratam a candidatura com imaturidade e descartam em sequência.
Pedem fit cultural, embora a cultura, em certos lugares, pareça consistir basicamente em repetir slogans e chamar o ordinário de high performance. E quando a pessoa já traz bagagem, outra camada de exclusão aparece com a plenitude de uma porta giratória: o etarismo.
O mercado adora dizer que valoriza o background, mas se assusta quando não vem em formato de juventude, sem rugas e até 35 anos. Nas entrelinhas, ainda opera uma matemática social conhecida: determinadas funções seguem menos diversas do que os relatórios institucionais apontam.
A fala da inclusão avança com impressionante velocidade nas campanhas institucionais mas a prática, nem tanto.
Em muitas estruturas, a (falta de) diversidade de gênero transparece na foto dos executivos mais seniores, no painel do evento ou no discurso que defende equidade desde que não altere a hierarquia concreta das oportunidades.
Fala-se muito em representatividade, mas nem sempre se abre espaço real para o crescimento e a permanência de quem não corresponde ao perfil historicamente de sempre.
Quem está do lado de fora aplicando às vagas percebe isso. Percebe quando a vaga parece inclusiva, mas o funil não é. Percebe quando o anúncio celebra diversidade, mas o ambiente premia semelhança.
Percebe quando afirmam acreditar em potencial e talento, mas só consideram trajetórias sem interrupção ou sem recomeço.
Percebe, principalmente, quando a humanidade é defendida como valor institucional e negada cotidianamente. Na verdade, muitas empresas continuam se apaixonando pelo vocabulário da diversidade do que pelo custo real de praticá-lo.
Eu e você entendemos esse cenário mas isso não nos impede de acreditar na mudança. Porque há algo humano em não desistir daquilo que faz sentido para nós, mesmo quando o caminho parece desenhado para nos convencer do contrário. Persistir não é ingenuidade; muitas vezes, é lucidez.
É reconhecer que o mercado pode estar adoecido em vários pontos sem aceitar que esse adoecimento defina por inteiro o nosso valor.
É continuar estudando, refinando repertório, ajustando rota, fazendo cursos, atualizando currículo, encarando entrevistas (quando acontecem), suportando negativas e, ainda assim, recusando a tentação de se tornar indiferente demais para sonhar.
Há dias em que o discurso corporativo sobre oportunidade soa quase ofensivo para quem coleciona portas fechadas.
Há dias em que a pessoa se pergunta se o problema está na escrita do currículo, na idade, no gênero, no timing ou no simples fato de que, em certos ambientes, talento sem apadrinhamento continua sendo só talento à espera de oportunidade. E, convenhamos, a meritocracia costuma ser uma palavra segura na boca de quem já teve a sua chance.
Mas também seria injusto encerrar essa reflexão apenas falando de derrota. Porque, apesar dos pesares, sigo acreditando que insistir em potencial humano não é fraqueza; é sobrevivência.
Num mundo obcecado por algoritmar, continuar humano virou gesto quase subversivo. Continuar acreditando em trabalho com sentido, em espaços onde competência e dignidade possam coexistir talvez pareça idealismo.
Eu prefiro chamar de ser desperto. Sem isso, a carreira vira apenas um circuito de validação externa e adoecimento interno, e não um lugar possível de contribuição real.
Por isso, entre algoritmos apressados, discursos polidos e práticas insuficientes, escolho preservar algo que máquina nenhuma mede direito: a coragem de continuar.
Continuar aprendendo. Continuar tentando. Continuar procurando o lugar em que palavra e prática se encontrem, em que diversidade não seja palavra decorada, em que experiência não seja penalidade e que humanidade seja critério vivo de decisão.
O mercado pode demorar a reconhecer diferentes travessias. Ainda assim, quem segue persistindo transforma adversidade em potência durante a jornada. E, cedo ou tarde, a maior vitória talvez seja essencialmente continuar tentando até que a vida no tempo certo mostre, um espaço de trabalho para chamar de seu.
Para citar: JONAS, Ayana. Entre algoritmos, discursos e portas fechadas: persistir também é um ato de coragem. Revista Farol Compliance, v. 1, n. 1, maio 2026. Disponível em: https://farolcompliance.com.br/revista/v1-n1/.